
E o tema de hoje é uma artista brasileira que canta em inglês e compõe de forma incrível. Trata maravilhosamente bem os fãs e ainda respeita os jornalistas como poucos. Ela acabou de lançar seu primeiro álbum, tem 16 anos, mas a idade é o que menos importa quando o trabalho é interessante e competente. Vale uma resenha a mais aqui.
Sei que por Mallu Magalhães estar bastante na mídia, se transforma em um caso de paixão ou aversão. Sua pouca idade faz com que as pessoas sintam-se acanhadas em admitir que curtam sua música. De qualquer forma, o espírito meio que libertário e descontraído do comportamento da artista não faça com que isso pese na reta final. O jornalista Lúcio Ribeiro foi um dos primeiros a notar que ela iria vingar e ele estava certo. Vamos falar de música.
"MALLU MAGALHÃES"

Me causa um pouco de embaraço ler e ouvir a respeito de rótulos impostos a artistas, as fofocas sobre relacionamentos e outros itens que giram em torno do universo de quem canta e atua. De qualquer forma, faz parte da fama. E não é diferente no caso de Mallu Magalhães. Já li 4 mil coisas semelhantes sobre ela, mas pouco, muito pouco a respeito dos mistérios de uma garota de 16 anos que se comporta no palco como se tivesse experiência de anos e anos na estrada. Talvez essa estrada seja a mítica Highway 61 onde passaram lendas como Robert Johnson... a mesma estrada cantada de forma ardida e irreverente por Bob Dylan. Alguns dizem que ela canta um inglês falível. Mas até aí, lordy, até mesmo quem nasceu num lugar onde se fala o idioma existem erros inimagináveis em letras e tudo... O fato é que isso não importa tanto quanto o contexto geral.
No momento, Mallu é a única artista nacional que inova. Ela se baseia em clássicos como Johnny Cash, Bob Dylan, cita Beatles (e junta músicas do grupo em seus shows) e outros pesos pesados. Mas fica por aí. O som acústico misturado ao elétrico, a urgência de seus vocais e o estilo das composições assombram. Ela faz questão de tocar ao vivo sem nenhum recurso de playback, o que impressiona, já que muitos nomes internacionais só cantam no karaokê e ainda, assim, faturam inimaginavelmente mais. Dinheiro? Mallu quer saber de música. Por isso dá e dará certo. Sem falar que ela tem uma excelente banda, maravilhosa equipe de produção e assessoria e um planejamento que certamente irá garantir que ela não seja mais uma cantora de um disco só. Ou apenas um CD. Sei lá qual é o melhor (pior) termo.
Mas vamos falar um pouco do álbum...
Difícil escolher canções favoritas de seu debut homônimo, mas é preciso citar aqui as indispensáveis: "You Know You've Got", "Angelina, Angelina", "Get To Denmark", "Town Of Rock 'n' Roll", "Her Day Will Come", "O Preço da Flor", "Vanguart" e "It Takes To The Tango". Excluo dessa lista top "Tchubaruba" e "J1" porque são os singles. E os singles geralmente puxam o disco, são boas músicas. Mas não são as melhores. São apenas os líderes. E são importantes por isso.
Gosto sempre de levantar a bola de "Angelina, Angelina", porque é uma coisa visceral. É muito difícil compor um rock. Ainda mais algo bem original e diferente. Mallu me contou em entrevista que a letra fala de uma de suas mochilas favoritas. Ela compõe sobre termos abstratos como se fossem para humanos, e isso é muito bacana.
Foto: João Wainer"Get To Denmark" é uma balada com harmonia tocante. Ela cita algo que não é tão comum para garotos. Ao menos do século 21: "os cavaleiros que dizem ni". É um termo usado no filme "Monty Python e o Cálice Sagrado". Uma referência sutil e corajosa, porque por Mallu, não tendo nem 18 anos, se refere a uma cultura distante de sua época. Na letra de "Get To Denmark" caiu bem demais.
"You Know You've Got" impressiona pelo seu arranjo diferente, esparso... cortesia de Mário Caldato, o produtor. Ela tem algumas variações de andamento que empolgam e Mallu e sua banda se esforçam bastante para reproduzir ao vivo como no álbum. Mas no CD é bom demais ouvir o som dos instrumentos mixados de uma forma diferente do que se ouve hoje em dia na maioria dos trabalhos.
A CIDADE DO ROCK

"Town Of Rock 'n' Roll" é uma das mais divertidas. Ela nos apresenta ao termo "Folk 'n' Roll", um dos favoritos da compositora. Mistura uma linguagem mais sátira e abstrata quando fala de um lugar que seria a capital do rock. E não, não é Jacarepaguá... Talvez todás as pessoas que curtam rock e seus derivados tenham pensado nisso. Mas falar sobre o termo é difícil sem exagerar e forçar a barra. Em "Town Of Rock 'n' Roll" dá para gostar das terminologias roqueiras sem cair no exagero.
"Her Day Will Come" é um delicioso jazz-rock que fala sobre a própria artista. Aliás, várias letras na terceira pessoa são comentários sobre sua própria vida, e agora que chegam ao ouvido do público ganham peso. Um certo peso, porque ela irá terá (se quiser) de manter o ritmo. Cumprir a profecia. O dia dela irá chegar, e chega aos poucos. Ao vivo, a música foi misturada a "Your Mother Should Know", dos Beatles, e ficou bacana.
Agora, duas faixas compostas em português. "O Preço da Flor" é etérea, contemplativa. Surreal. Um eco hipnótico. A produção e mixagem aqui são incríveis. O som do violão de 12 cordas é o predominante. Os vocais meio fantasmagóricos de Mallu comprovam sua versatilidade. Não existe preocupação com um padrão. O ritmo em valsa deixa a canção ainda mais viajante. Parece um fado do século 21, só que melhor. Ao vivo ficou muito bom, mas no CD é imbatível. Já "Vanguart" - evidentemente uma citação à banda indie nacional - é uma das mais pops. Letra enigmática. Lembra um pouco Mutantes e Pato Fu. A produção aqui dá show novamente. As harmonias e percussão se fundem de uma forma inusitada, perceba no fone de ouvido. Para fechar, o coda tem um piano que lembra um pouco os interlúdios musicais de "Strawberry Fields Forever". Em sua última encarnação ao vivo, ela ganhou um peso sensacional. Funciona, porque eles não tentam reproduzir o som mais concentrado e detalhado do álbum.

"It Takes Two To Tango". Uau. Aqui Mallu incorpora mesmo seu ídolo Bob Dylan, só que na versão MM. Apenas voz e violão, em uma performance dramática. Lembra coisas do álbum "Freewheelin'", o segundo do sr. Robert Zimmerman. Performance vocal diferente de quase tudo no álbum, além de um desempenho fantástico na guitarra acústica. Fecha o CD como se fecha a porta de casa. Tipo: "Agora que cantei quero minha privacidade.
Ela tem direito.
Abraços e até a próxima
P.S: Antes do Natal quero falar de "Electric Arguments" do nosso amigo Paul McCartney. Não apenas um álbum novo, mas um refresco no deserto e uma esperança de mais coisas criativas do gênio.


2 comentários:
Grande álbum!
Excelente resenha!
abraços
Andreas
Oi pai, eu só queria falar que o seu blog é legal!! Visitarei mais vezes. Lucasssssssssssssssssssssssssss.
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